As viagens a Lisboa, até à Estação do Rossio, eram muito pontuais e sempre com o intuito de fazer uma compra para uma ocasião especial. Era, então, o comboio que nos trazia ao centro de Lisboa, onde jogava com as ondas das pedras da calçada dos Restauradores (“Só vale pisar as pedras pretas!”) e a tal recordação, tão presente, da Sr.ª. do carrinho cor-de-laranja das panquecas, que se avistava logo ao descer a escadaria, lá no fundo, no canto esquerdo da Estação, a gulodice ao regresso num tempo em que, para uma criança, comer um doce era especial!
E as “casinhas”, como chamava às divisórias das carruagens, descobertas, com os Avós, numa viagem mais longa, talvez até Leiria. E os Pais a acharem um “azar” termos feito a viagem ao lado de estranhos, os Avós a retorquir que não, que tinha sido divertidíssimo, uma aventura com direito a diário de bordo e tudo. E o que parecia ser uma desvantagem, revelava-se, afinal, como uma mais-valia: a aventura de nos cruzarmos com pessoas diferentes que, por momentos, partilham, numa viagem, aquele pedaço das nossas vidas…
Hoje, trabalho na REFER.
As recordações que vão ficando são, agora, muito diferentes…
Guardo o telegrama que marcava a entrevista para a admissão; a sensação que fazia algo importante quando colaborava na redação da regulamentação da empresa que, então, ainda se alicerçava; a satisfação da intervenção na primeira ação, vencida a colegas mais velhos e experientes, a reclamar prejuízos tão insignificantes e banais mas que sentia como meus; no terreno, com os colegas de outras áreas, com os saltos enterrados na gravilha, de olho nos comboios que podiam lá vir; a desocupação de uma casa nossa, recebida com tiros; o entusiasmo de participar, noite fora, num jogo de gestão sem perceber nada de números ou contas; uma negociação bem sucedida, com direito a elogio do Juiz e tudo pela forma como foi conseguida; e o vazio que se instala depois de cada intervenção, pelo que se deu, antes…
Também o prazer de desvendar a estação de Santa Apolónia, onde agora trabalho, aos colegas de escola do meu filho mais velho. E os amigos que se vão descobrindo, num percurso que nunca é a solo.
E, pelo meio, tantas outras estórias…